11/11/2012

CRÓNICA 14

AS COISAS QUE ME IRRITAM NAS CONVENÇÕES DA ESQUERDA

Digamos que sobre a direita está tudo dito. O verdadeiro desafio é criticarmos os nossos - e a nós mesmos. Na esquerda - whatever that means - há uma série de convenções que me irritam solenemente. Vamos a elas.

Irrita-me a ideia de utopia, de futuro, de amanhãs que cantam, de homens novos. A coisa é normalmente apresentada como poética, mas na realidade é muito pobre de espírito. Não por causa dos horrores que se cometeram em seu nome, mas porque não há nada de original em utopizar e, de caminho, cometer horrores em seu nome. Consigo pensar em várias igrejas e seitas, consigo pensar no desenvolvimentismo, consigo pensar nos colonialismos, consigo pensar na crença no mercado. O pior é que os conteúdos da utopia são erroneamente vistos como os princípios de que não se abdica. Ora, a utopia é coisa de fantasia e os princípios não estão lá. Os princípios já estão cá.

Irrita-me também, e fazendo comboiozinho com esta coisa dos princípios, a tendência para a intransigência purista. Veja-se como o drama da esquerda é quase sempre a impossibilidade de se coligar. Reconheço que isto pode ter um elemento positivo: sinal de diversidade, logo de pensamento crítico. Mas a verdade é que a maior parte das vezes tudo se assemelha muito mais às guerras entre protestantes e católicos do que a outra coisa. Toda a gente na esquerda é, consoante a linguagem de época, revisionista, traidor, vendido, extremista, radical. Sempre a acusação mútua sobre quem representa menos bem a família.

Mais um comboiozinho: a intransigência purista tem uma versão engraçada que é a do nunca nada está bem ou sequer melhor. Veja-se a reação de algumas pessoas e setores à vitória de Obama. Se Obama é americano e dirige os EUA a sua vitória não pode ser considerada boa, porque não há cá lugar para relativizações. Qualquer celebração da vitória de Obama - e da sua importância para contribuir para a derrota do pensamento reacionário em vários planos e em todo o mundo - é vista como cedência intelectual e política. É assim como achar que Sócrates e Passos são a mesma coisa. Ou não ligar a mínima ao facto de que a aposta na qualificação das pessoas, no ensino e na ciência e na economia com base na tecnologia e nas energias alternativas ter sido a única iniciativa comprovadamente de futuro e crescimento nos 30 anos de democracia e a ter tido efeitos; e não ver que é justamente isso que Passos está a destruir, para lá até da troika. Enfim: nunca aceitar que há melhor e pior, que há coisas que melhoram. Não, se não estão de acordo com o programa...

Irrita-me ainda o preconceito de quem acha que não tem preconceitos e publicita os pergaminhos do combate ao preconceito. A vigilância preconceituosa em relação a tiques de classe, formas de vestir, estilos de vida, quem representa bem e quem embaraça certos grupos cujas causas supostamente se apoia, etc., etc., só tem equivalência nos preconceitos da direita estabelecida. A direita "preconceitua" com base na ideia de obediência às coisas tal qual elas são, de obediência aos costumes e de vergonha face à sua quebra. A esquerda "preconceitua" com base na ideia de que um certo comportamento introduz uma contradição insanável no modelo utópico do tipo de pessoa que se deseja para o futuro.

E este preconceito estende-se a outras esferas. Por exemplo, o anti-americanismo chega a roçar o puro etnocentrismo. Quantas pessoas de esquerda não imaginam os EUA como um sítio de pessoas ignorantes, reacionárias, e obesamente alimentadas a uma dieta de McDonald's? Idem para a muito fina linha divisória entre anti-sionismo e antissemitismo, para o anti-europeísmo latente, para a associação fácil entre alemães e nazismo ou para o discurso desculpativo em relação a tantas experiências de socialismo dito "real". Really...

E para que não pensem que isto é uma diatribe direcionada apenas à esquerda dita radical, há que dizer que o movimento contrário, infelizmente comum na social-democracia das últimas décadas, também não augura nada de bom. A vontade quase histérica de querer parecer "responsável", de não assustar as convenções sociais da classe média, e de pretender gerir o capitalismo quando este já passou para um estádio que não permite a gestão ao mero nível nacional, acaba por constituir a imagem invertida no espelho. Os radicais têm de descer à Terra, que é habitada por gente concreta e contraditória, algo que acontece devido ao simples facto de ser humana. E os reformistas têm de olhar um bocadinho para as nuvens, para desgrudarem os sapatos de um chão já muito sujo.

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